Minha birra com o MTG

25/09/2019

Uma vez escrevi aqui neste espaço e em meu blog uma coluna onde criticava algumas discussões que estavam em voga no Movimento Tradicionalista Gaúcho. Na época fui fortemente criticado por algumas pessoas. Em suma meu texto dizia que o movimento deveria aprender a ouvir o seu público e que algumas atitudes estavam levando a entidade a cravar uma faca em seu próprio coração.

Minha relação com o tradicionalismo é mais antiga e íntima do que algumas pessoas pensam. Já fui sócio em três CTGs em três cidades diferentes, já ocupei cargo em duas patronagens, já fiz parte da coordenação de uma Região Tradicionalista, já participei competidor do Enart, além de outros modestos serviços ligados ao movimento e a arte cultural do Rio Grande do Sul.

Hoje, confesso, estou afastado do movimento. Ainda mantenho minhas relações com a arte, mas não estou participando de nenhuma entidade e observo tudo o que acontece no atual cenário do movimento tradicionalista como um espectador.

Minha birra com o Movimento Tradicionalista ao longo dos anos, e já tive o privilégio de falar isso pessoalmente ao ex-presidente, Manuelito Savariz, pessoa por quem nutro grande respeito, é que os CTGs que são a essência dessa expressão cultural pecam no seu dever social e inclusivo, infelizmente tornando algumas entidades em clubes sociais, fechados, frequentados e comandados por seitas familiares.

Como não vivemos mais no século XVIII e XIX, as crianças não nascem ligadas ao tradicionalismo. A maioria do povo gaúcho não frequenta um CTG e nem se veste de bota e bombacha em seus dias normais. As mulheres não saem de vestido de prenda e saia de armação o tempo todo e nem todo mundo tem propriedade com cavalos a disposição para que seus filhos aprendam e ganhem gosto pela lida campeira e pelas práticas que estão no alicerce de nosso folclore.

Se o movimento tradicionalista é algo vivo, e o sangue que pulsa nas veias de sua existência são as pessoas, então os CTGs precisam ser instrumento de inclusão e agregamento. Não é possível se fazer cultura sem pessoas.

A pergunta que se faz em meio a essa minha divagação é qual o papel do CTG perante a sociedade? Não precisa ir longe para encontrar a resposta, pois ela está na Carta de Princípios do MTG: fazer de cada CTG um núcleo transmissor da herança social e através da prática e divulgação dos hábitos locais, noção de valores, princípios morais, reações emocionais, etc.; criar em nossos grupos sociais uma unidade psicológica, com modos de agir e pensar coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns.

Também está na carta de princípios que é obrigação do tradicionalista promover, no meio do nosso povo, uma retomada de consciência dos valores morais do gaúcho e também está escrito lá , na carta aprovada em 1961, que difundir nossa História, nossa formação social, nosso folclore, enfim, nossa Tradição, como substância basilar da nacionalidade é um dos princípios do movimento.

A palavra difundir significa espalhar, transmitir, propagar. Já a palavra princípio sígnica base, raiz, razão de ser, e indo além, ditame moral, regra, lei, preceito, logo difundir a cultura é uma obrigação de todo o tradicionalista e do todo o movimento. Uma lei a se cumprir.

Transformar o movimento em um círculo fechado vai à contramão do que prega a carta de princípios do tradicionalista. É razão de ser do movimento, buscar cada vez mais adeptos, tenham eles históricos familiares de participação ou não, pois como o próprio Paixão Cortes dizia: "Acredito que um Centro de Tradições tem diversas finalidades e cada um deles dá as dimensões dentro do nível cultural de seus dirigentes."

Felizmente a julgar pelos discursos que tenho ouvido nestes últimos dias por parte dos dirigentes tradicionalistas de Tenente Portela, as entidades estão caminhando no rumo certo, principalmente o Sentinela da Fronteira, que em todas as falas de seu patrão tem adotado um linguajar agregador. Assim se faz o tradicionalismo, vivo e com pessoas.